Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Estado da Guanabara

Um repórter me telefona, eu ainda meio tonto de sono, para saber se eu achava melhor que o Distrito Federal fosse incorporado ao Estado do Rio, consideradas todas as razões óbvias, ou se preferia sua transformação no novo Estado da Guanabara. Sem hesitação optei pela segunda alternativa, não só porque me parece que o Distrito Federal constitui uma unidade muito peculiar dentro da Federação, como porque vai ser muito difícil a um carioca dizer que é fluminense, sem que isso importe em qualquer desdouro para com o simpático estado limítrofe.

O negócio é mesmo chamar o Distrito Federal de Estado da Guanabara, que não é um mau nome, e dar-lhe como capital o Rio de Janeiro, continuando os seus filhos a se chamarem cariocas. Imaginem só chegarem para a pessoa e perguntarem de onde ela é, o ela ter de dizer: "Sou guanabarino, ou guanabarense"... Não é de morte? Um carioca que se preza nunca vai abdicar de sua cidadania. Ninguém é carioca em vão. Um carioca é um carioca. Ele não pode ser nem um pernambucano, nem um mineiro, nem um paulista, nem um baiano, nem um amazonense, nem um gaúcho. Enquanto que, inversamente, qualquer uma dessas cidadanias, sem diminuição de capacidade, pode transformar-se também em carioca; pois a verdade é que ser carioca é antes de mais nada um estado de espírito. Eu tenho visto muito homem do Norte, Centro e Sul do país acordar de repente carioca, porque se deixou envolver pelo clima da cidade e quando foi ver... kaput! Aí não há mais nada a fazer. Quando o sujeito dá por si está torcendo pelo Botafogo, está batendo samba em mesa de bar, está se arriscando no lotação a um deslocamento de retina em cima de Nélson Rodrigues, Antônio Maria, Rubem Braga ou Stanislaw Ponte Preta, está trabalhando em TV, está sintonizando para Elizete.

Pois ser carioca, mais que ter nascido no Rio, é ter aderido à cidade e só se sentir completamente em casa, em meio à sua adorável desorganização. Ser carioca é não gostar de levantar cedo, mesmo tendo obrigatoriamente de fazê-lo; é amar a noite acima de todas as coisas, porque s noite induz ao bate-papo ágil e descontínuo; é trabalhar com um ar de ócio, com um olho no ofício e outro no telefone, de onde sempre pode surgir um programa; é ter como único programa o não tê-lo; é estar mais feliz de caixa baixa do que alta; é dar mais importância ao amor que ao dinheiro. Ser carioca é ser Di Cavalcanti.

Que outra criatura no mundo acorda para a labuta diária como um carioca? Até que a mãe, a irmã, a empregada ou o amigo o tirem do seu plúmbeo letargo, três edifícios são erguidos em São Paulo. Depois ele senta-se na cama e coça-se por um quarto de hora, a considerar com o maior nojo a perspectiva de mais um dia de trabalho; feito o quê, escova furiosamente os dentes e toma a sua divina chuveirada.

Ah, essa chuveirada! Pode-se dizer que constitui um ritual sagrado no seu cotidiano e faz do carioca um dos seres mais limpos da criação. Praticada de comum com uma quantidade de sabão suficiente para apagar uma mancha mongólica, tremendos pigarreios, palavrões homéricos, trechos de samba e abundante perda de cabelo, essa chuveirada -- instituição carioquíssima restitui-lhe a sua euforia típica e inexplicável: pois poucos cidadãos poderão ser mais marretados pela cidade a que ama acima de tudo. Em seguida, metido em sua beca de estilo, que o torna reconhecível por um outro carioca em qualquer parte do mundo (não importa quão bom ou medíocre o alfaiate, de vez que se trata de uma misteriosa associação do homem com a roupa que o veste), penteia ele longamente o cabelo, com gomina, brilhantina ou o tônico mais em voga (pois tem sempre a cisma de que está ficando careca) e, integrado no metabolismo de sua cidade, vai a vida, seja para o trabalho, seja para a flanação em que tanto se compraz.

Pode-se lá chamar um cara assim de guanabarino?

Vinicius de Moraes, carioca da gema, opina quando da polêmica mudança da capital federal para Brasília.  Uma crônica bem humorada retratando bem o espírito de sua gente e da cidade.

Publicado por Pseudónimo às 10:55
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos
|

::Com Todas As Letras

::Procurar

 

::Agosto 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

::Novos Artigos

:: Opressão

:: Sete Faces

:: É talvez o último dia da ...

:: Chegaremos ao fim

:: Cada gesto teu

:: ABÍLIO TERRA JÚNIOR-POETA...

:: Ainda não

:: A palvra

:: Os versos que te fiz

:: Velhinha

:: Eu não sou de ninguém

:: Em busca do amor

:: Horas rubras

:: Languidez

:: Charneca em flor

:: Alma perdida

:: Sem remédio

:: Impossível

:: Amar!

:: Nocturno

:: Mais triste

::Autores

:: a. ramos rosa(1)

:: abilio terra junior(5)

:: abreu paxe(3)

:: agostinho neto(3)

:: aires almeida santos(2)

:: alda lara(4)

:: alexandre dáskalos(1)

:: alexandre garcia(15)

:: alexandre o'neill(6)

:: almada negreiros(21)

:: almeida garrett(4)

:: álvares azevedo(2)

:: ana c.(5)

:: ana paula tavares(4)

:: antero de abreu(2)

:: anthony félix(1)

:: antónio carlos jobim(1)

:: antónio gedeão(5)

:: antónio jacinto(3)

:: arlindo barbeitos(11)

:: ary dos santos(3)

:: bocage(1)

:: boris vian(1)

:: carlos drummond de andrade(4)

:: castro alves(1)

:: cecília meireles(4)

:: célia meireles(1)

:: cesário verde(21)

:: charles bukowski(1)

:: conceição cristóvão(5)

:: david mestre(3)

:: diana vaz(18)

:: eloisa pereira(1)

:: ernesto lara filho(1)

:: eugénio de andrade(24)

:: federico garcía lorca(1)

:: félix grande(1)

:: fernando assis pacheco(1)

:: fernando guimarães(1)

:: fernando pessoa(186)

:: florbela espanca(18)

:: geraldo altoé(1)

:: guerra junqueiro(1)

:: helena faria monteiro(6)

:: henrique lisboa(1)

:: herberto helder(2)

:: hermes fontes(10)

:: inês reis(1)

:: irondino teixeira aguiar(1)

:: jaime sabines(1)

:: jessé barbosa de oliveira(1)

:: joão de melo(2)

:: joão maimona(1)

:: joão rasteiro(20)

:: joão tala(5)

:: jorge arrimar(2)

:: jorge casimiro(3)

:: jorge castro(1)

:: jorge de sena(5)

:: josé gomes ferreira(1)

:: josé luis mendonça(4)

:: josé luís peixoto(1)

:: josé saramago(14)

:: júlia lello(1)

:: letra de carlos tê (rui veloso)(1)

:: liliana correia(1)

:: lopito feijó(3)

:: luís de camões(56)

:: luiz pacheco(1)

:: lurdes mendes da costa(1)

:: malume medeiros(1)

:: manuel alegre(1)

:: manuel bandeira(16)

:: manuel c. amor(30)

:: manuel rui monteiro(3)

:: maria(1)

:: maria joão cantinho(1)

:: mário antónio(4)

:: mário henrique leiria(1)

:: marta david(1)

:: miguel torga(31)

:: minês castanheira(1)

:: murilo mendes(5)

:: nuno júdice(11)

:: nuno travanca(4)

:: oscar silbiger(1)

:: oswald de andrade(1)

:: pablo neruda(1)

:: papiniano carlos(1)

:: paulo ramos(1)

:: pedro laranjeira(1)

:: pedro mota(1)

:: piriska grecco(1)

:: rui duarte carvalho(6)

:: sá-carneiro(16)

:: sérgio godinho(8)

:: sérgio xarepe(4)

:: silvia munhoz(12)

:: vinicius de moraes(10)

:: viriato da cruz(6)

:: todas as tags

::Arquivos

::Links

::Ligações

Thomar Vrbe Tomar Sentido Rádio Comunicação Nova. Blogue José Saramago Alicerces Alquimia Submersa Da Literatura

::GameForge

blogs SAPO

::subscrever feeds