Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Meus fiapos de vida

Descobri um dia que estava sem os meus olhos.

Isso aconteceu porque acordei um dia e não consegui mais ver nada.
Fui tateando atrás dos meus óculos, mas eles não serviam pra nada nessa hora.

Nessa loucura bizarra, solitária, não poderia ter apoio de nada, e de ninguém. Como um soldado da legião estrangeira, só tinha minhas pernas, minhas mãos, minhas lembranças.

Fui atrás, nesse mundo de meu Deus, procurar meus olhos, em tudo o que era canto, em todos os porões, varandas, lixos, tronos, vísceras, bolos, cantigas, mundanas, postes e musgos da minha alma.

Nada, nenhum sinal deles.

Pedi até licença ao Demo para vasculhar nas suas gavetas, bolsos e frestas entre os dedos. Sem resultado.

Fui perguntando de porta em porta, nessa minha cegueira eterna, se alguém tinha visto meus olhos, sem alguém tinha uma pista de onde poderia catá-los de volta.

Fiz isso durante milênios, fui até em outras galáxias nessa busca insana, sem luz, sem guia, sem ponto final.

Quando tudo estava perdido, quando só me restava fechar os buracos em que depositaria meus olhos e morrer de vez, encontrei o que procurava, estava desesperado como nunca estive, como sempre estive.

Já tinha revirado do avesso tudo o que entendo como mundo, numa busca que devorou todas as minhas noites e dias, fazendo com que virasse zumbi escravo dessa sina, refém eterno dos cabrestos dessa louca missão.

Foi então que descobri que meus olhos estavam, durante todo esse tempo, dentro dos seus.

Lá viviam calmos, cuidando da vida, regando seu jardim, fazendo aquela comidinha gostosa de todo dia, vendo se as crianças já tinham feito a lição de casa, estendendo a roupa no varal, coisas assim.

É isso mesmo, os meus olhos estavam dentro de você o tempo todo, e esse foi justamente o único lugar que não pensei em procurar.

Confesso que essa cegueira deve ter me acompanhado já antes do meu primeiro sopro de vida, já antes dos meus pais se conhecerem, bem antes disso.

Era por isso que, para que eu pudesse enxergar qualquer coisa, sempre precisei dos seus olhos junto dos meus, junto de mim, escorando meus passos e dando cobertura quando fosse dar meus tiros por aí.

Um anjo da guarda que nunca recusava serviço, que nunca tinha câimbra na hora de mover um músculo, que nunca abandonaria o seu plantão simplesmente esfarrapando uma desculpa qualquer.

Era por isso que esse pobre infeliz e tolo, coitado, ficou tropeçando, caindo e se esborrachando nessas tantas ruelas da vida, desde todo o sempre, desde todo o meu sempre, desde todo o nosso sempre.

Sem teus olhos eu não era capaz de ver nenhuma réstia de luz, nenhum respingo de cor, nenhum fiapo de vida.

Nenhum fiapo de vida.

Publicado por Pseudónimo às 10:02
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1 comentário:
De Anónimo a 3 de Novembro de 2009 às 10:28
Maravilhoso, criativo e muito sensível: és realmente um grande poeta e tens na veia a inspiração que não via há muito tempo: parabéns pelo poema!

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