Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Balanço de um filho morto

Homem Senatdo na cadeira de balanço
Sentado na cadeira de balanço
Na cadeira de balanço
De balanço
Balanço do filho morto.
Homem sentado na cadeira de balanço
Todo o teu corpo diz que sim
Teu corpo diz que sim
Diz que sim
Que sim,teu filho está morto.
Homem sentado na cadeira de balanço
Como um pêndulo,para lá e para cá
O pescoço fraco,a perna triste
Os olhos cheios de areia
Areia do filho morto.
Nada restituirá teu filho à vida
Homem sentado na cadeira de balanço
Tua meia caída,tua gravata
Sem nó,tua barba grande
São a morte
são a morte
A morte do filho morto.
Silêncio de uma sala: e flôres murchas,
Além,um pranto frágil de mulher
Um pranto...o olhar aberto sobre o vácuo
E no silêncio a sensação exacta
Da voz,do riso,do reclamo débil.
Da órbita cega os olhos dolorosos
Fogem,moles,se arrastam como lesmas
Empós a doce,inexistente marca
Do vómito,da queda,da mijada.
Do braço foge a tresloucada mão
Para afagar a imponderável luz
De um cabelo sem som e sem perfume.
Fogem da boca lábios pressurosos
Para o beijo incolor na pele ausente.
Nascem ondas de amor que se desfazem
De encontro à mesa,à estante,à pedra mármore.
Outra coisa não há senão o silêncio
Onde com pés de gêlo uma criança
Brinca,perfeitamente transparente
Sua carne de leite,rosa e talco.
Pobre pai,pobre,pobre,pobre,pobre
Sem memória,sem músculos,sem nada
Além de uma cadeira de balanço
No infinito vazio... o sofrimento
Amordaçou-te a boca de amargura
E esbofeteou-te palidez na cara.
Ergues nos braços uma imagem pura
E não teu filho; jogas para cima
Um bocado de espaço e não teu filho
Não são cachos que sopras,porém cinzas
A asfixiar o ar onde respiras.
Teu filho é morto; talvez fosse um dia
A pomba predileta,a glória,a messe
O teu porvir de pai; mas nôvo e tenro
Anjo,levou-o a morte com cuidado
De vê-lo tão pequeno e já exausto
De penar - e eis que agora tudo é morte
Em ti,não tens mais lágrimas, e amargo
É o cuspo do cigarro em tua boca.
Mas deixa que eu te diga,homem temente
Sentado na cadeira de balanço
Eu que moro no abismo,eu que conheço
O interior das entranhas das mulheres
Eu que me deito à noite com os cadáveres
E liberto as auroras do meu peito:
Teu filho não morreu! a fé te salva
Para a contemplação da sua face
Hoje tornada a pequenina estrêla
Da tarde,a jovem árvore que cresce
Em tua mão: teu filho não morreu!
Uma eterna criança está nascendo
Da esperança de um mundo em liberdade.
Serão teus filhos,todos,homem justo
Iguais ao filho teu; tira a gravata
Limpa a unha suja,ergue-te,faz a barba
Vai consolar tua mulher que chora...
E que a cadeira de balanço fique
Na sala,agora viva,balançando
O balanço final do filho morto.
Publicado por Pseudónimo às 17:10
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

::Com Todas As Letras

::Procurar

 

::Agosto 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

::Novos Artigos

:: Opressão

:: Sete Faces

:: É talvez o último dia da ...

:: Chegaremos ao fim

:: Cada gesto teu

:: ABÍLIO TERRA JÚNIOR-POETA...

:: Ainda não

:: A palvra

:: Os versos que te fiz

:: Velhinha

:: Eu não sou de ninguém

:: Em busca do amor

:: Horas rubras

:: Languidez

:: Charneca em flor

:: Alma perdida

:: Sem remédio

:: Impossível

:: Amar!

:: Nocturno

:: Mais triste

::Autores

:: a. ramos rosa(1)

:: abilio terra junior(5)

:: abreu paxe(3)

:: agostinho neto(3)

:: aires almeida santos(2)

:: alda lara(4)

:: alexandre dáskalos(1)

:: alexandre garcia(15)

:: alexandre o'neill(6)

:: almada negreiros(21)

:: almeida garrett(4)

:: álvares azevedo(2)

:: ana c.(5)

:: ana paula tavares(4)

:: antero de abreu(2)

:: anthony félix(1)

:: antónio carlos jobim(1)

:: antónio gedeão(5)

:: antónio jacinto(3)

:: arlindo barbeitos(11)

:: ary dos santos(3)

:: bocage(1)

:: boris vian(1)

:: carlos drummond de andrade(4)

:: castro alves(1)

:: cecília meireles(4)

:: célia meireles(1)

:: cesário verde(21)

:: charles bukowski(1)

:: conceição cristóvão(5)

:: david mestre(3)

:: diana vaz(18)

:: eloisa pereira(1)

:: ernesto lara filho(1)

:: eugénio de andrade(24)

:: federico garcía lorca(1)

:: félix grande(1)

:: fernando assis pacheco(1)

:: fernando guimarães(1)

:: fernando pessoa(186)

:: florbela espanca(18)

:: geraldo altoé(1)

:: guerra junqueiro(1)

:: helena faria monteiro(6)

:: henrique lisboa(1)

:: herberto helder(2)

:: hermes fontes(10)

:: inês reis(1)

:: irondino teixeira aguiar(1)

:: jaime sabines(1)

:: jessé barbosa de oliveira(1)

:: joão de melo(2)

:: joão maimona(1)

:: joão rasteiro(20)

:: joão tala(5)

:: jorge arrimar(2)

:: jorge casimiro(3)

:: jorge castro(1)

:: jorge de sena(5)

:: josé gomes ferreira(1)

:: josé luis mendonça(4)

:: josé luís peixoto(1)

:: josé saramago(14)

:: júlia lello(1)

:: letra de carlos tê (rui veloso)(1)

:: liliana correia(1)

:: lopito feijó(3)

:: luís de camões(56)

:: luiz pacheco(1)

:: lurdes mendes da costa(1)

:: malume medeiros(1)

:: manuel alegre(1)

:: manuel bandeira(16)

:: manuel c. amor(30)

:: manuel rui monteiro(3)

:: maria(1)

:: maria joão cantinho(1)

:: mário antónio(4)

:: mário henrique leiria(1)

:: marta david(1)

:: miguel torga(31)

:: minês castanheira(1)

:: murilo mendes(5)

:: nuno júdice(11)

:: nuno travanca(4)

:: oscar silbiger(1)

:: oswald de andrade(1)

:: pablo neruda(1)

:: papiniano carlos(1)

:: paulo ramos(1)

:: pedro laranjeira(1)

:: pedro mota(1)

:: piriska grecco(1)

:: rui duarte carvalho(6)

:: sá-carneiro(16)

:: sérgio godinho(8)

:: sérgio xarepe(4)

:: silvia munhoz(12)

:: vinicius de moraes(10)

:: viriato da cruz(6)

:: todas as tags

::Arquivos

::Links

blogs SAPO

::subscrever feeds