Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Canção sem fim

Algures no tempo a mulher cantava
talvez cantasse não mais que o paraíso,
a voz erguendo-se como um enigma
era uma voz que desconhecia a palavra,
ininteligível sonho de luz,
despertando a terra para a linguagem plena.

Era o canto sem tempo sem lugar
não mais que canto
entreabrindo-se como negra rosa
imponderável, convocando a chuva
irradiando a plenitude da música
dela saía o vento e a inocência
e tudo se deixava ferir pela sua candura,
uma outra espécie de morte na água.

Quando se toca
o som dessa canção queima
como ardem a inocência e o tempo puro,
adentra os sonhos e faz perdurar o domínio
desses obscuros animais que nos devoram o coração,
para logo o fazer renascer, muito além da terra,
uma febre de silêncio que nos afunda.

Olha: eu gostava de abrir esse lírio
anunciado na densidade do canto, muito para além
do azul cobalto que imaginamos para os céus de Tiepolo
e da luz das asas dos anjos,
esse canto, muito para além do muro da morte,
febre queimante, desdenhando o incêndio da vida.

Ela, mulher, cantando, alheia a toda a linguagem,
o corpo abrindo-se no enigma.

 

Eis que as vi, iluminadas no vento,
dançando em redor do fogo
essas crianças devastadas
com lágrimas que se confundiam com o riso.
Eram por todo o lado,
tremendo na fragilidade da noite,
duendes em desatino,
tão mudas e cintilantes,
caminhando na direcção do silêncio
e arrastando-se na terra como se dela
fossem a sua luz,
chafurdando no sangue das rosas.

 

Eram múltiplas, repetidas, silentes
sabiam-se imagens despidas,
à procura da voz de Deus,
atravessando a água dos sonhos,
escavando no rastro da lua
sonhando-se como animais de densos cascos
à espera da aurora, ali,
onde apenas era o fogo sem voz,
silêncio iracundo de Deus.

Durante muitos meses,
ainda antes de Abril, antes de tudo,
ficaram esses olhos cegos,
diante de tanta escuridão
e despiram-se, iniciando o canto
lento, lento, em redor do fogo.

E eis que esse canto puro,
ainda antes de Abril,
me fustigava a alma de dor.
É necessário caminhar por dentro da chuva negra.
É necessário talvez adormecer
como a mulher que se faz seiva
encerrada na árvore, os cabelos esvoaçantes
os olhos velados em acesa morte,
essa morte no meio da luz,
todo o tempo puro, já em meio de uma vida,
no país de um delírio incontido.

As crianças que cantam,
redescobrindo o poder do fogo
e inventando a alegria.
Eu sei. A minha alegria nasce da penumbra,
quando desejo abrir os dedos
e faço nascer as coisas
escrevendo-as no reverso da página.
Espero que elas despertem
que me acendam de novo o coração.

_____________________________

Anjos amortalhados nas vértebras da noite
abrigados no enigmático sorriso
com que me afrontam. Esse um exercício
de exactidão numérica, rasando
o fogo na navalha da escuridão.

Anjos amortalhados no véu das asas
de olhos vazios, aves escuras desorbitadas,
pendurados como casacos amarrotados
nas luminosas entranhas de um animal.

Anjos amortalhados no redobrar do vazio
onde o tempo se enrola sobre si próprio
e se fecha numa pedra ou estrela coagulada.

Ouve. Toca a finados, o tempo todo
é por ti ainda, este requiem
sem que o reconheças, no inumerável
reflexo dos espelhos. Anjos espreitam-te.

E é onde não estou que se ergue, intangível
o canto puro, a voz que te enlaça
e te arrasta nas coxas da luxúria.

Autores:
Publicado por Pseudónimo às 16:31
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